domingo, 15 de junho de 2008

Interpretação e bom senso

Ora bem, tanbém queria apresentar aqui uma reflexão fofinha. Sobre o bom senso na música.

Ontem ouvi um gajo, que não vou dizer quem é, a tocar piano. É um homem que está no caminho de se tornar pianista e que tem tudo para isso: técnica excelente, sensibilidade muito apurada, criatividade verdadeiramente espantosa. Apesar de bastante preguiçoso, segundo dizem, teve resultados muito, muito bons; apesar de já estar numa idade algo difícil vai voltar a concorrer para estudar lá fora, depois de já ter passado por três professores extraordinários em três países diferentes. Voltando, ontem ouvi-o tocar. E o que me chamou à atenção para falar, foi isto:

Como é que alguém que consegue inventar atmosferas tão extraordinárias ao piano, que faz interpretações tão diferentes do que já ouvi toma decisões musicais tão pouco cautelosas? Parece haver tanta ânsia em fazer momentos diferentes do que já ouvimos, que resulta em algo musicalmente...estranho, disconexo, ou, mesmo que seja conexo, pouco agradável, ou pouco desagradável, conforme for o objectivo. Explicar-vos por escrito é muito, muito difícil, mas vou tentar. Nós podemos sentar-nos, fazer uma interpretação incrivelmente diferente e ser «genial». E é genial porquê:
  1. Quem conhece a obra acha muito diferente e, como está correcto, lógico e coeso, interessante.
  2. Quem não conhece a obra, acha divertido e, mesmo não se identificando com muitas coisas que sentiu, acha interessante
  3. Quem pura e simplesmente não gostou, dá-lhe valor na mesma, porque está interessante. Ah, e correcto, esqueci-me da palavra.
Porque acredito sinceramente que exista este conceito houseano na música, também, e acredito também que a música é ciência - esta palavra no sentido mais bonito e romântico. Não podemos fazer o que nos apetece se, à obra que estamos a tocar e que entretanto ganha vida, lhe apetecer o contrário (no caso dessa pessoa que ouvi não era de todo flagrante, porque, como vos falei estou a falar do mais alto nível, ele não deixa de ser um excelente pianista. Mas notavam-se algumas coisas que não lhe ficavam assim tao bem). Porque é este mesmo o problema: fazer música não é apenas criar o belo, o horror, o dramático, o divertido, é também a lógica que une estas coisas todas e faz com que toda a gente perceba que caralho estamos a fazer em cima do palco! Se me proponho a tocar uma obra com trinta minutos, tenho trinta minutos para fazer perceber às pessoas o que quero. Não tenho 1+5+3,5+8+3,5+5+1+3. Se um é uma introdução, cinco uma atmosfera de selva e o 3,5 um ambiente verde-garrafa, a «selvagendade» do cinco está obviamente condicionada pelo verde que lhe segue; e se o objectivo for não ter qualquer relação, então esse «não ter qualquer relação» tem que formar a relação entre as duas partes.

Da mesma forma que se eu quero fazer uma suspensão de 15 segundos numa obra, suspensão essa que demora o triplo do tempo que geralmente é feito, assumo-a até ao fim: imóvel, quieto, sem retirar as mãos do teclado, respirando de forma inaudível, etc. Se algo que é diferente já custa a entrar à primeira, então se for mal feito...ora merda!

Não me levem a mal, ou não me interpretem mal, porque é fácil interpretarem mal o que acabei de dizer. Já falei de música com palavras que assustam muita gente: Ciência, Certo, e só falta falar em objectividade, que também há, e muito, muito mais do que geralmente se pensa. Começa logo com alguns princípios: quem vai a um concerto, vai para sentir alguma coisa, para aprender alguma coisa, para se surpreender, para lhe suscitar alguma coisa. Antes de fazerem interpretações malucas, com cálculos astronómicos, pensem primeiro nisto. Oiçam mentalmente, do princípio ao fim, se o que querem fazer vai entrar na cabeça das pessoas.

Mas pronto, podia estar a tarde toda aqui a falar disto, que provavelmente ainda não conseguiria dizer tudo o que penso, e já estou a abusar um bocado do tempo de antena. =P

Bernardo.

11 comentários:

Walking Metaphor disse...

Concordo plenamente contigo amigo, e esse é um grande desafio no trabalho de qualquer instrumentista, que contribui, em grande parte, para que a sua contribuição para o resultado final da obra seja muitas vezes mais importante que a do compositor, por mais paradoxal que tal possa parecer.
No entanto, e para dificultar as coisas, fica sempre o confronto entre lealdade e originalidade na interpretação - o segredo para a combinação certa de ambos só está ao alcance dos eleitos.

Daniel disse...

Esta questão levanta um outro problema: por que razão é necessário, de todo, um intérprete? Numa época em que possuímos os mais variados meios de execução musical automática - desde os sistemas midi, mais ou menos refinados, aos instrumentistas-robot - não será que, num futuro mais ou menos próximo, poderemos pensar em eliminar completamente a figura do instrumentista humano intérprete da obra musical? Será que o compositor poderá alguma vez limitar-se a programar um sistema informático, cujo grau de refinamento e complexidade seja suficiente para lhe permitir reproduzir integralmente a sua ideia musical?
A meu ver, essa hipótese não passa de uma utopia; mesmo a obra musical mais tradicional (não é preciso entrar em qualquer categoria de obra aberta) tem sempre inerente, na sua própria estrutura - e portanto objectivamente - um certo grau de abertura, pelo que existe sempre uma multiplicidade de formas de actualizar essa estrutura, em cada execução da peça. É nesse sentido inegável que pode existir uma grande variedade de interpretações válidas, podendo divergir em muitos aspectos. Essa validade resulta não só (nem sequer principalmente) da fidelidade aos dados fixados pelo compositor na partitura (que são sempre insuficientes para reconstituir a totalidade da ideia musical), mas sobretudo da compreensão da sua estrutura e forma, e do modo como se pode conjugar os múltiplos parâmetros da interpretação para revelar esse sentido musical. Por isso, a interpretação é, em certo sentido, uma actividade criativa e em que pode ser detectada originalidade, embora seja uma criação e originalidade de segundo grau, por assim dizer. Nessa medida, o intérprete até pode revelar a forma da peça de uma forma nunca pensada pelo compositor, pois este, uma vez cristalizada a obra, deixa de ser dono dela (a obra assume existência autónoma), e por isso nem o próprio autor terá, em geral, consciência de todas as implicações da sua composição.

Telmo disse...

Meu caro Daniel, a sua questão sobre um instrumentista não humano já leva a discussão para outro campo, o da inteligência artificial.

Interpretar é uma actividade criativa, tal como compor, pintar, escrever, resolver problemas. Está no mesmo nível de complexidade.

A discussão é vasta demais para se ter aqui, mas não se esqueçam que um sistema informático é um sistema, tal como o cérebro humano também o é!

Graus de complexidade diferentes, mas também no pensamento humano podemos criar abstracções para explicar o seu funcionamento (é o que a filosofia está a fazer há séculos). Se nós temos capacidade para implementar num computador essas abstracções isso já é outra questão, mas reparem que a natureza já as implementou em nós.

Daniel disse...

Caro Telmo,
De facto trata-se de uma questão de nível de complexidade, e os sistemas informáticos estão a esse nível muito aquém dos humanos. Seja como for, e sem ser muito entendido na matéria, parece-me que o principal problema dos sistemas informáticos, neste domínio, é que lidam essencialmente com uma "inteligência" de tipo lógico-matemático, o que sendo certamente imprescindível à actividade musical (tanto composição como interpretação), é insuficiente para reconstituir a riqueza de uma interpretação humana. Para isso ser possível, a inteligência artificial teria de ganhar outras dimensões além da lógico-matemática (teria de possuir, por assim dizer, intuição); talvez esse dia acabe por chegar, e nessa altura o humano se funda com a máquina... Mas para já parece-me que isso ainda está razoavelmente no domínio da especulação...

Telmo disse...

Pois, tem toda a razão mas aí é que entram as abstracções.

Será que a intuição é mais do que matemática muito muito avançada? Será que a nossa capacidade criativa é mais do que um bom gerador de números aleatórios?

A partir do momento em que se inventaram algoritmos que permitem a um computador APRENDER, eu já estou por tudo ;)

Daniel disse...

Sim, estou convencido que a intuição não é uma categoria lógica, nem sequer uma lógica muito avançada. É qualitativamente outra coisa. Aliás, as próprias teorias científicas (Karl Popper dixit), para serem criadas, não resultam de nenhum processo lógico - não se pode conceber uma teoria por dedução, como é evidente, e a indução não é um critério logicamente válido, logo as teorias resultam de um salto irracional, intuitivo. Uma máquina apenas dotada de lógica e matemática nunca poderá criar teorias científicas ou novas formas de composição musical. Quanto ao facto de os computadores já conseguirem, hoje em dia, em certos contextos, aprender, é preciso ter em conta que a máquina continua a não ter vontade, intencionalidade, consciência de que aprende; e a criação implica vontade, intencionalidade, consciência. Mas pode ser que estejamos destinados a viver no mundo Matrix, nunca se sabe...

Telmo disse...

E nós, humanos, temos intencionalidade? Ou só estamos a obedecer a comportamentos pré-definidos?

Imagina uma célula. Recebe input do ambiente que a rodeia tal como um computador, processa informação, retorna um output. Isto é tudo química, claro, e os computadores funcionam com electricidade.

Os animais são mais complexos que as células, os seres humanos mais complexos que os animais. Mas será que isso nos faz diferentes deles? Será que temos "alma" e eles não? Ou somos só iguais, embora mais complexos?

Eu sinceramente acho que não temos mais nada que os animais a não ser esta tal complexidade a mais.

Como tal, um sistema biológico que funciona com base na química pode ser similar a um sistema não biológico.

Mas lá está, se nós seremos capazes de criar máquinas assim tão complexas, isso já é outra história, mas eu sinceramente acredito que é possível.

Daniel disse...

Atenção que eu não invoquei nenhum conceito de "alma" - sou completamente materialista, não creio que exista tal coisa, tudo é de facto, em última análise biologia extraordinariamente complexa.
Mas aqui acho útil ter em conta duas coisas: por um lado, o facto de sermos em última instância constituídos por células - em boa verdade ainda por átomos... - não significa que o todo seja apenas a mera soma das partes; por outro lado, somos um sistema dotado de consciência e intuição, e, como disse, estou convencido que ambas resultam de origens completamente diversas da lógica matemática; o problema é conseguir implementar esse outro tipo de lógica em máquinas visceralmente concebidas para lidar - de forma muito mais eficaz do que nós - com estruturas lógico-matemáticas.
Em síntese, o problema do computador não é tanto o dos seus elementos constituintes (também nós temos elementos constituintes de base extremamente simples, como toda a matéria), mas o problema da forma como é capaz de relacionar esses constituintes.

Telmo disse...

Percebi o que queres dizer, embora ache que isso são só problemas de implementação!

É pá, este blog é a melhor coisinha internética que aconteceu à música nacional :D

Walking Metaphor disse...

Recentemente descobrimos, na interpretação feita por computadores (mas não só), que a regularidade ultra-precisa da máquina é algo de insuportável para o ouvido humano, pelo que foram introduzidos nalguns programas geradores de erros aleatórios (obviamente quase infinitesimais) para que a música nos parecesse mais natural.
Talvez seja esse o grande segredo do nosso cérebro - e da nossa vida - a dimensão, precisão e qualidade dos nossos erros. Quase como se, influenciando e percepcionando os erros de outras pessoas ele lhes confira o sentido de empatia, identidade e bem-estar ou seus inversos. Consequência directa será que somos definidos pelos nossos erros. E assim, ou há padrões específicos intra-pessoais que, ao longo do tempo e dos acontecimentos vão contribuindo para o nosso conceito de algo ou alguém, ou há algo mais que a lógica.

Pessoalmente, e a um nível puramente metafísico, não acho que algo não-organico possa sofrer da grande osmose para com o mundo que nos rodeia que é a criatividade. Que possa apropriar-se das externalidades que fazem com que na humanidade o todo seja maior que as partes. Mas isso já não interessa para o caso...

Uptown disse...

Concordo com o que dizes!! E parabens pela tua "clareza" ao exprimires-te e tb pelas tuas ideias, neste nosso Portugal é-me frequentemente dificil encontrar alguem que realmente faça ideia daquilo q está a dizer....

Qt ao nosso piansta...Acho que sei quem é, pela descrição... Grande talento.... Imensa facilidade...Mas ha uns tempos que nao o ouço....

Parabens pelo blog!