«A arrancar em Janeiro de 2011, e com uma duração de 20 meses, o "Estaleiro" pretende trazer à cidade de Vila do Conde uma onda criativa de workshops, mostras, exposições, concertos e muitos outros eventos. Ao todo, são 20 ateliês, 20 concertos e 20 filmes, inseridos em quatro programas muito distintos.»
Todos conhecemos os vídeos de estúdio das canções de caridade que juntam todos os famosos ao mesmo tempo para cantarem dois versos cada sobre a fome das crianças ou as cheias de Moçambique. Aqui ficam duas pérolas satíricas.
Venho abrir um desafio: que os companheiros inarmónicos indiquem um filme cuja banda sonora lhes tenha especialmente impressionado. Podia indicar mais de meia dúzia - lembro-me de repente do Vertigo de Hitchcock, do Crash de Cronenberg, do Solaris de Tarkovsky, da Sarabanda de Bergman e tantos, tantos outros...
Mas nenhum me deixou tão boquiaberto como o Notre Musique, do Godard - ver aqui; a primeira parte do filme (o Inferno), em particular, deve ter a banda sonora mais assustadora da história!
«A Fonoteca Municipal de Lisboa promove em Novembro a quarta edição da Mostra de Filmes Documentários - Imagens sobre Música. Ao todo serão exibidos 12 documentários, com passagem por Angola em obras como Mãe Ju de Inês Gonçalves e Kiluanje Liberdade ou Kuduro, Fogono Museke , pelos anos 80 dos Heróis do Mar em Brava Dança ou pelo premiado Fados do espanhol Carlos Saura, com Carlos do Carmo, Camané e Chico Buarque.»
Há filmes que nos surpreendem pela positiva. Giro, giro, é quando a surpresa não é o filme em si.
Desde o início de There Will be Blood a minha atenção centrou-se na banda sonora, apesar da sua profunda ligação e complementaridade com a parte visual, e fiquei absolutamente abismado ao vê-la crescer e adensar ao longo do filme, ao ponto de nas melhores cenas (com algumas excepções, a utilização da música não se faz sempre nos mesmos moldes - e ainda bem) dominar por completo a acção. Quando o filme acabou corri a informar-me sobre a banda sonora, que julguei ser uma compilação, sobretudo por causa da diversidade estilística e técnica - temos desde (perdoem-me os palavrões, eu próprio não gosto de os usar) uma escrita minimal a pós-moderna, para orquestra completa e para quarteto de cordas, com alguns salpicos de electrónica. Acontece que o seu autor (da grande maioria, pelo menos) é o nosso amigo Jonny Greenwood, mais conhecido como guitarrista dos Radiohead, que me parecem cada vez mais um poço sem fundo em termos criativos. Jonny já nao tinha nada para me provar quanto à sua qualidade, mas ouvir tão boa música e bem diferente do que estava habituado representou ainda assim uma enorme surpresa!
Estamos a falar de Música Contemporânea de primeiríssima água, como pouca tenho ouvido vinda de compositores dum meio mais erudito/académico. E podem fazer-lhe festinhas que não morde.
Refiro-me ao absolutamente extraordinário filme O Convento, exibido na passada terça-feira, 14 de Outubro. A atmosfera do filme é de tal forma sombria, onírica e alucinada que, como alguém disse, depois de vermos o filme não temos bem a certeza se o vimos ou sonhámos. A fotografia e o sentido do enquadramento são, como é habitual em Oliveira, não menos originais do que irrepreensíveis. E quatro actores verdadeiramente alucinados, autênticos espectros movendo-se na tela: John Malkovich, Catherine Deneuve, Luís Miguel Cintra (o melhor dos 4!!!) e Leonor Silveira.
Bem, e perguntam por que razão um post destes num blog sobre música. Por duas razões. Em primeiro lugar, porque esta forma de contar histórias, pelo encantamento que provoca, é essencialmente musical. Depois, porque a música tem um papel essencial no filme, como contraponto da imagem, contribuindo decisivamente para reforçar o seu carácter alucinado - é, de facto, a música que, em boa medida, dá profundidade à imagem, lhe dá relevo, um outro significado. Deixo este pequeno excerto do YouTube, que não deixa adivinhar a história de modo demasiado descarado, mas que pode dar uma ideia do que estou a falar.
(Haveria, aliás, muito a falar sobre a utilização da música em Manoel de Oliveira, numa abordagem tão pessoal quanto a de, por exemplo, Stanley Kubrick ou Andrei Tarkovsky (cf. aqui). Voltarei a este assunto.)
NOTA: Creio que a música é de Sofia Gubaidulina, como a maior parte da banda sonora, mas ainda não consegui confirmar relativamente a esta passagem em particular.
De vez em quando, a vida cultural no Porto tem os seus altos. Na verdade, depois dos comentários recentes acerca da "produção" (deveria dizer destruição?!?!) dos Carmina Burana do nosso "amigo" Carl Orff (o percurso político e cívico deste senhor mereceria aliás, só por si, um post separado...), no Coliseu (esse grande espaço do bailado e da música!!!), convinha referir algo de positivo...
Pois então, está a decorrer na Fundação de Serralves um ciclo de cinema em que é apresentada toda a obra de Manoel de Oliveira, acrescida de outros filmes, creio, por ele escolhidos (ou que de qualquer forma, têm afinidades com a obra dele). Esses filmes incluem Rebecca de Hitchcock, Le Charme Discret de la Bourgeoisie de Buñuel, A Paixão Segundo Mateus de Pasolini, entre muitos muitos outros. Um desses outros é o motivo deste post: o fabuloso, extraordinário Parsifal, do realizador alemão Hans Jürgen Syberberg, que consiste numa encenação fílmica da ópera de Wagner, ópera essa que contem alguma da música mais sublime alguma vez composta.
Não me vou alongar muito. Muito menos discutir as supostas simpatias nazis que estão implícitas tanto na ópera de Wagner como no próprio filme. Parecem-me aliás, ideias sem qualquer fundamento. Queria apenas referir que, apesar da limitação do propósito inicial (tratando-se de filmar uma ópera), os cenários, a cor da fotografia, o trabalho dos actores (ouvimos uma gravação por cantores profissionais, mas vemos actores que, embora também tendo cantado nas filmagens - o grau de detalhe com que Syberberg filma as expressões faciais, durante o canto, é verdadeiramente extraordinário -, são dobrados), a mobilidade hiptónica da câmara conferem ao filme uma força incrível. As pouco mais de 10 pessoas que assistiram a este filme no passado Domingo nem sentiram pelas quatro horas a passar... (não houve intervalo, de resto)
Depois do textinho sobre o Tarkovsky, aqui vai um brevíssimo post sobre outro grande realizador, o Michelangelo Antonioni - recentemente falecido, salvo erro no mesmo dia do Bergman (!) - com uma cena do magnífico filme Zabriskie Point. Deixo a cena porque funciona por si mesma, e fora do contexto do filme não será spoiler para ninguém. Espero é que seja um incentivo a que o vejam (se já não o viram). Passa regularmente no TCM. A magnífica música (a partir de um minuto e meio, mais ou menos), é dos nossos velhos amigos Pink Floyd. Espero que gostem!
Há artistas que andam a cambalear na fronteira subtil entre o piroso e o genial. Wendy Carlos é uma delas.
Nascida Walter Carlos nos Estados Unidos, define-se como "sintetizadora", compositora e fotógrafa de eclipses solares. Com o lançamento do pioneiro sintetizador Moog, criado pelo Dr. Robert Moog, em 1964, o mundo da música sofreu um violento abanão, com muita coisa a precisar de ser redifinida. Nas experiências que se sucederam - de notar que o interface não era propriamente acessível ou intuituivo, sendo por vezes necessárias várias horas para encontrar e mudar o som - muitos caminhos foram traçados e desbravados, mas um dos mais importantes passos no sentido da evolução e consolidação do instrumento foi dado com Switched On Bach (e que melhor forma de consolidar um instrumento que tocando Bach?), de 1968, que incluía peças do grande João Sebastião Ribeiro tocadas exclusivamente pelo sintetizador Moog e registadas num gravador de 8 pistas - sim, porque o sintetizador era monofónico. Todas as sobreposições de notas tinham que ser tocadas separadamente - já estão a ver a trabalheira. O álbum teve tamanho sucesso que foi o primeiro álbum de música clássica de sempre a vender mais de 500 000 cópias e a atingir a platina. Quanto à música em si (não em Si), o efeito do timbre artificial do sintetizador é muito forte e completamente descontextualizador. O que não é necessariamente uma coisa má. Depende da utilização, da tal fronteira. Para uma ideia melhor carregar aqui. No ano seguinte Carlos gravou e editou The Well Tempered Synthesizer (1969) - referencia a Das Wohltemperirte Clavier de Bach-, um álbum basicamente nos mesmos termos mas com a inclusão de outros compositores. Contudo, o ponto alto da sua carreira chegaria em 1971, com o filme de culto The Clockwork Orange, de Stanley Kubrick, cuja banda sonora consiste largamente em originais, adaptações e interpretações de Wendy Carlos. Num filme tão marcante e pesado a sua música aparece como um feliz complemento ou contraponto, quer dando profundidade quer funcionando como elemento irónico. Vejam-se os exemplos:
Fica prometida uma análise à la Daniel mais cuidada da música em Kubrick. Paralelamente ao lado aqui mostrado, Wendy Carlos também tem desenvolvido trabalho original a solo, como por exemplo Sonic Seasonings (1972), onde é feito uso de diversos samples, tratados electronicamente, para além do synth, a banda sonora de Tron (1982), filme da Disney, e Beauty in the Beast (1986), com diversas experiências com escalas maradas e algumas feitas especialmente para o álbum.
Goste-se ou não, há que respeitar os pioneiros. E eu até gosto.