domingo, 25 de janeiro de 2009

Realejo @ Lavra

Foi um bom espectáculo o que os Realejo deram em Lavra na semana passada. Conhecidos nos anos 90 por uma certa eruditização da música tradicional portuguesa, souberam reinventar-se nos anos recentes, com a inclusão de percussão e voz, "modernizando" a sua abordagem aos temas tradicionais (e continuando a apostar em originais).
Integrado nas jornadas da Escola de Música local, o concerto teve o seu lado de didáctico e o seu lado de festa, num auditório bem composto (~400 pessoas). O mestre de cerimónias Amadeu Magalhães esteve exemplar no bandolim, cavaquinho, concertina, gaitas e flautas, muito bem ladeado por Fernando Meireles, conhecido construtor e tocador de sanfona. A dupla do GEFAC apareceu acompanhada do simpático Miguel Veras (guitarrista de Júlio Pereira) e havia ainda um set de percussão interessante, aliando percussão tradicional (dois adufes na horizontal, percutidos com baquetas) à mais convencional (tarola, bombo, hi-hat). A completar o quinteto, em metade das músicas, a melhor voz do panorama folk actual: Catarina Moura, também da Brigada Victor Jara.
A rever numa próxima oportunidade.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Novas do mundo do download

- Numa altura em que a Apple vai deixar o DRM, a Microsoft prepara-se para o implementar no seu MSN Mobile Music Service. A entrevista da PC Pro ao responsável da secção Mobile da Microsoft UK é surreal. Entre o facto reconhecido de se perder as músicas quando se muda de telemóvel e declarações como «There may well be people who just want to listen to the track on their mobile alone.», fico sem compreender como se pode pensar em dar passos que são verdadeiros retrocessos.

- «Um tribunal italiano decidiu absolver dois estudantes que partilharam ficheiros em redes peer to peer (P2P). O juiz justifica-se dizendo que os acusados não lucraram com o acto pirata.» Bom senso é o que se pode ver na notícia da Exame Informática.

- Uma iniciativa inédita, como noticiado pela NME, está a causar polémica. Defendem as autoridades governamentais da Ilha de Man (uma ilha britânica, para quem não conhece) a possibilidade dos seus cidadão fazerem downloads de música ilimitados e legais a troco de uma taxa anual.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Bowie é o culpado da crise

Já não bastava ser o culpado da criação do glam rock e da homossexualidade, David Bowie é agora acusado de ser também culpado da crise económica! Ok, o Ziggy Stardust and the Spiders From Mars é um grande álbum e ele não tem culpa dos Placebo e a cena da homossexualidade vi num site demasiado fascisto-religioso... mas a da crise económica é a sério. A notícia é de uma estupidez deliciosa. Ainda me custa a acreditar que seja mesmo uma notícia de um jornal (mesmo sendo do Correio da Manhã) e não a composição sobre «A Crise Financeira» do Tó Zé do 7ºC. A legenda da figura dá o mote: «Bowie criou um mecanismo financeiro de consequências imprevisíveis». Leiam o resto:

«O 'camaleão' David Bowie foi apontado como o responsável pela actual crise financeira mundial. De acordo com a Imprensa britânica, a origem da crise começou com uma manobra financeira efectuada por Bowie.
Tudo começou em 1997, quando Bowie se lançou no mundo da alta finança, com uma operação a que chamou 'securitização', que se resume do seguinte modo: em vez de esperar pelo retorno dos direitos de autor dos próximos dez anos, Bowie vendeu esses mesmos direitos e embolsou o dinheiro de imediato. Como? Através dos Bowie Bonds, títulos que garantiam aos investidores um bom retorno.
Porém, tudo descambou quando os bancos pegaram na ideia do 'camaleão' e começaram a vender as hipotecas que possuíam, criando um papel, um título de securitização, que garantia bom retorno aos investidores. O risco passou então para os compradores, muitos deles companhias de seguros. Por outro lado, os bancos compraram também títulos, ficando de novo com hipotecas de pessoas que não as conseguiam repagar. O preço dos títulos caiu a pique, os bancos perderam milhões e... estalou a crise.»


Ora a ver se percebi: o Bowie, além de ter inspirado imensos músicos ao longo dos últimos anos, também inspirou os senhores da alta finança? Aposto que os depósitos a prazo vêm de uma música do Hunky Dory e os fundos de capitalização do Let's Dance.

Vocalistas pra rua

Foi o que aconteceu ao dos Biffy Clyro, expulso do concerto quando os seguranças o acharam mais um fã demasiado exaltado no meio do público.

«A banda estava a actuar em Birmingham, em Inglaterra, quando se viu em palco sem saber o paradeiro do vocalista. Entretanto, no backstage, Simon Neil era impedido de regressar à cena pelos seguranças que pensaram tratar-se de um fã e o forçaram a abandonar o recinto.»

Notícia completa na Blitz.

Uma Teoria da Arte



Andando há uns meses mergulhado nesta obra, já era tempo de escrever um post sobre isso. No que creio que será o primeiro post sobre estética no inarmónico.

Escrito por um musicólogo de sólida formação filosófica - Karol Berger - este A Theory of Art é uma obra de referência na reflexão estética actual. Em traços muito gerais - este post pretende ser apenas uma pequena chamada de atenção - o livro opõe-se a uma visão da arte (da estética) separada da dimensão ética e moral - estas dimensões são essenciais na sua concepção de arte. A pergunta central que subjaz à obra é, assim:

"What, if anything, has art to do with the rest of our lives, and in particular with those ethical and political issues that matter to us most?"

Este princípio tem grandes implicações, quanto mais não seja porque coloca o dedo na ferida em relação a muita da arte actual. Para Berger, algumas das funções centrais que a arte pode cumprir (a título de exemplo) dizem respeito a iluminar a nossa existência real ou a conceber a existência de mundos utópicos -a arte tem, por isso, implicações ao nível ético, ao nível dos valores, ao nível da vida em comunidade...

Outro aspecto interessante é que a música ocupa um espaço central nesta Teoria da Arte (o que é, aliás, bastante raro em obras deste tipo). Assim, todo um capítulo é dedicado a uma perspectiva histórica da evolução da música.

Podemos concordar com a visão do autor em maior ou menor grau, mas uma coisa é certa, é uma obra absolutamente fascinante!

Pode ser comprado aqui e parcialmente lido aqui.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

4 x 36



4 acordes, 36 músicas.

Nancarrow

No século XX - e suponho que também noutras épocas - há alguns compositores que poderiam ser chamados, com toda a propriedade, marginais. Desenvolvendo o seu estilo praticamente isolados do resto do mundo, alheios às preocupações mais características do seu tempo, são mais tarde redescobertos e inspiram novos desenvolvimentos. Lembro-me, na primeira metade do século XX, de Varése e, na segunda, de Scelsi e de Nancarrow.

Este último - Conlon Nancarrow - começou a compor, a partir da década de 1940, uma série de peças para pianola, escrevendo directamente nos rolos perfurados (só mais tarde a sua música seria transcrita para notação convencional) - note-se como é uma técnica em tudo similar a quem escreve hoje directamente instruções midi num qualquer sequenciador. Sem entrar em muitos detalhes, é uma música de uma incrível complexidade rítmica (os compositores, embora geralmente sádicos em relação aos intérpretes, como é sabido, ainda se contêm um pouco - ora, com um sistema automático de execução, podem dar livre curso ao seu sadismo e loucura latentes...); já o aspecto melódico e harmónico é geralmente criticado por ser primitivo e popular (esta última parte nunca é explicitada, mas está sempre implícita...) o que, quanto a mim, é bastante injusto (a identidade desta música depende precisamente disso).

Alguns exemplos:

Study no.5 for player piano (reparar o inacreditável crescendo de textura!)




Study no. 11 for player piano



A partir dos anos 70, esta música veio a influenciar a obra de muitos compositores, desde logo Ligeti e Grisey. Vejam lá se esta peça não tem algo a ver com as anteriores:


Ligeti - Étude nº 1 "Désordre" (por falar em atitudes sádicas dos compositores face aos intérpretes...)

Umbilical

Desculpem o carácter grotesco mas o Cyanide and Happiness é mesmo assim.

Secura #1

- Sabem quanto leva o The Edge (guitarrista dos U2) por cada concerto?
- Nada. Toca sempre pro Bono...

SXSW

O conhecido mais-que-um-festival South By Southwest vai contar este ano com as presenças lusas de Clã, Legendary Tiger Man, David Fonseca (este já é repetente), Buraka Som Sistema e Rita Redshoes.
É bom ver cada vez mais artistas portugueses por lá, algo inimaginável há poucos anos.