Bem, nada de particularmente interessante para dizer; mas, já que o inarmónico é um blog, também tem por supuesto uma vertente de diário das nossas dissonancisses, dissonâncias e dissonantismos. A minha recente dissonancisse comprada hoje (finalmente...! para um estudante de piano, a demora é bastante má :S ) foram os estudos de Scriabin. E é incrível como até o primeiro, o op. 2 nº qualquer-coisa (composto, por sinal, aos quinze anos!) é uma obra espantosa. Mas, como praticamente em qualquer compositor, em que as obras vistas como as mais geniais são as dos seus últimos anos de vida, os estudos mais incríveis do homem são mesmo os três op. 65, compostos em 1908. O primeiro tem a mão direita a fazer nonas cromáticas. Coisa fácil, deduzirão certamente... o segundo, sétimas, e o último abusa das quintas. E qualquer um deles, diga-se de passagem, abusa da nossa resistência contra a depressão... lol. [ok, vou calar-me, esta foi muito má]
Bem, encontrei um vídeo - que não é vídeo nenhum, é apenas uma gravação - do Richter a tocar os três seguidos no youtube.
Para os que não conhecem Scriabin, ou não conhecem bem... aproveitem, até porque os estudos são curtinhos (Pedro, não tens desculpa, já te mostrei uns prelúdios! ).
Bernardo.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
quinta-feira, 26 de junho de 2008
O King
Depois de algumas semanas mergulhado nessa obra-prima absoluta que é o Coro, de 1976 - e noto que não uso essa adjectivação a torto e a direito, muito menos para música contemporânea - não podia deixar de partilhar de alguma forma o meu fascínio actual, visceral, doentio, obsessivo, compulsivo, devorador, pela música de Berio. Um excerto (sem a qualidade sonora desejável, é verdade) só para abrir hostilidades... (é da Sinfonia, de 1968).
Temas:
Contemporânea
terça-feira, 24 de junho de 2008
Kafka à Beira-Mar

"- Quando estou a conduzir gosto de ouvir as sonatas para piano de Schubert com o volume no máximo. Sabes porquê?
- Não faço ideia.
- Porque tocar uma sonata para piano de Schubert é das coisas mais difíceis. Sobretudo esta Sonata em Ré Maior. É uma peça de grande dificuldade. Alguns pianistas conseguem executar de um modo perfeito um, dois movimentos, mas, na minha opinião, se escutares com atenção os quatro andamentos, verás que nunca ninguém logrou arrancar das teclas a tonalidade certa que a sonata, na sua totalidade, exige. Muitos foram os pianistas famosos que se esmeraram, na tentativa de provar que estavam à altura do desafio, mas é como se faltasse sempre qualquer coisa. Até à data não existe uma única interpretação que te leve a dizer É isso mesmo! Ele conseguiu! Sabes porquê?
- Não.
- Porque esta sonata é, em si própria, imperfeita. Robert Schumann, que conhecia bem as sonatas de Schubert, classificou-a de "divinamente longa".
- Se a composição é imperfeita, como se explica que existam tantos pianistas apostados em tocá-la na perfeição?
- Boa pergunta - diz Oshima. (...)"
- Não faço ideia.
- Porque tocar uma sonata para piano de Schubert é das coisas mais difíceis. Sobretudo esta Sonata em Ré Maior. É uma peça de grande dificuldade. Alguns pianistas conseguem executar de um modo perfeito um, dois movimentos, mas, na minha opinião, se escutares com atenção os quatro andamentos, verás que nunca ninguém logrou arrancar das teclas a tonalidade certa que a sonata, na sua totalidade, exige. Muitos foram os pianistas famosos que se esmeraram, na tentativa de provar que estavam à altura do desafio, mas é como se faltasse sempre qualquer coisa. Até à data não existe uma única interpretação que te leve a dizer É isso mesmo! Ele conseguiu! Sabes porquê?
- Não.
- Porque esta sonata é, em si própria, imperfeita. Robert Schumann, que conhecia bem as sonatas de Schubert, classificou-a de "divinamente longa".
- Se a composição é imperfeita, como se explica que existam tantos pianistas apostados em tocá-la na perfeição?
- Boa pergunta - diz Oshima. (...)"
- Excerto de Kafka à Beira-mar, de Haruki Murakami
8bit-mania 2
Como falei no meu post de estreia, há muitas bandas hoje em dia inspiradas nos jogos de computador da época dourada. Uma banda que reclama alguma dessa influência são os Dragon Force.
Para quem não conhece, começo por descrever a banda:
Imaginem dois Yngwie Malmsteems que tomaram café a mais. Metam os dois na mesma banda, adicionem um baixista e um teclista que não se ouvem. Para baterista, o coelho da Duracell em modo pedal duplo. Isto tudo para a tocar o quê? Power Metal... Com influências de música de vídeo jogos.
Se ficaram curiosos com a descrição e querem ouvir Dragon Force... Bem, não ouçam. Se houvesse um limite de notas por segundo, os gajos incorriam numa contra-ordenação muito grave com direito a apreensão da carta. O cérebro humano não deve conseguir processar tantas notas por segundo, aliás, se forem teimosos e ouvirem, o risco de ficarem com o cérebro derretido é vosso.
Ainda assim, ouvi esta música no outro dia (nem me perguntei como fui dar de ouvidos com isto) e deu-me uma sensação de familiaridade tão grande que eu tinha a certeza que já tinha ouvido aquilo em qualquer lado.
Quem me conhece sabe que sou obsessivo-compulsivo. Passei a semana toda a remoer até que me lembrei de onde conhecia a música: do Super Hang-On, jogo de motas da Mega Drive. Coincidência ou mais que isso? Ouçam e decidam! (basta ouvirem os primeiros segundos de cada)
Dragon Force - Fields of Despair (devido ao risco de explosão cerebral, administrar em quantidades moderadas)
Super Hang-On - Sega Mega Drive - Música: Winning Run
Para quem não conhece, começo por descrever a banda:
Imaginem dois Yngwie Malmsteems que tomaram café a mais. Metam os dois na mesma banda, adicionem um baixista e um teclista que não se ouvem. Para baterista, o coelho da Duracell em modo pedal duplo. Isto tudo para a tocar o quê? Power Metal... Com influências de música de vídeo jogos.
Se ficaram curiosos com a descrição e querem ouvir Dragon Force... Bem, não ouçam. Se houvesse um limite de notas por segundo, os gajos incorriam numa contra-ordenação muito grave com direito a apreensão da carta. O cérebro humano não deve conseguir processar tantas notas por segundo, aliás, se forem teimosos e ouvirem, o risco de ficarem com o cérebro derretido é vosso.
Ainda assim, ouvi esta música no outro dia (nem me perguntei como fui dar de ouvidos com isto) e deu-me uma sensação de familiaridade tão grande que eu tinha a certeza que já tinha ouvido aquilo em qualquer lado.
Quem me conhece sabe que sou obsessivo-compulsivo. Passei a semana toda a remoer até que me lembrei de onde conhecia a música: do Super Hang-On, jogo de motas da Mega Drive. Coincidência ou mais que isso? Ouçam e decidam! (basta ouvirem os primeiros segundos de cada)
Dragon Force - Fields of Despair (devido ao risco de explosão cerebral, administrar em quantidades moderadas)
Super Hang-On - Sega Mega Drive - Música: Winning Run
domingo, 22 de junho de 2008
Gorecki (2)
Bem, não resisto, e ainda para mais vocês já devem ter percebido que eu funciono um bocado por vícios (enquanto for só música e tabaco, passo muito bem!) e como tal, aí vai:
2º andamento da 2ª sinfonia de Gorecki saquem, e oiçam (garanto-vos que só encontram isto em cd, e com sorte)
Vá, promento que para a próxima vez que vos chatear é com qualquer coisa diferente!
Bernardo.
PS: espero que o link funcione, acho que é a primeira vez que faço isto.
2º andamento da 2ª sinfonia de Gorecki saquem, e oiçam (garanto-vos que só encontram isto em cd, e com sorte)
Vá, promento que para a próxima vez que vos chatear é com qualquer coisa diferente!
Bernardo.
PS: espero que o link funcione, acho que é a primeira vez que faço isto.
sábado, 21 de junho de 2008
Radiohead: 10 anos para gravar uma música
Li um artigo muito interessante sobre o facto da faixa «Nude», do último álbum dos Radiohead, já existir desde alturas do «The Bends». Em vez de estar a relatar-vos o que li e a dar a minha opinião pessoal deixo a transcrição das declarações do Nigel Godrich (produtor da banda). Vejam como se podem passar 10 anos sem estarem plenamente satisfeitos com uma canção e não deixar de tentar que ela atinja a forma certa (percepção reservada apenas a alguns, e mesmo assim discutível).
«Thom's very prolific, he's always writing, and one time I made a list of songs that he had that they hadn't recorded. Radiohead have a little catalogue of songs that just never get done. It's almost because it's their best material and no version is ever quite good enough. It's too precious to them. I said, "You have to record them, because one day you're going to die and they'll go with you. It's criminal. And if you don't fucking record them, I'm going to fucking do it! I'll do a covers album!" And Nude was one of these songs.
After The Bends was all done and dusted, I'd seen them at a show and they said they'd been thinking about us all working together. We'd done a bunch of B-sides on The Bends and it had gone really well, so we hatched a plan to have a couple of little try-outs to see how it would work.
We booked a weekend in the studio to start recording what would become OK Computer, although it took a long time to really get into that. We recorded two songs; one was called Big Boots – actually, it was called Man O' War at the time, which is another great lost Radiohead classic. The other thing we tried to record was a song called Nude. Thom had just written it and it was almost a different song to the version on In Rainbows. It's recognisable, but it had different lyrics and it was a lot straighter. The idea was for it to be like an Al Green track. It had a Hammond going through it on the version we recorded that weekend. They liked it, it was deemed a great success. But then for some reason everyone went off it. We tried to record it a couple more times for OK Computer, probably about three times for Kid A and another three times for Hail To The Thief. But somehow it had gone.
We had a little holiday from each other. The band tried to record on their own, which – surprise, surprise – didn't work. Then they tried working with someone else, which also didn't work. During that time I went to see Colin, the bass player, and he played me a rough live version of Nude that they'd done in rehearsals. He'd written his new bassline, which transformed it from something very straight into something that had much more of a rhythmic flow. The chorus had been taken out – very Radiohead! – and there was this new vocal break and this new end section. It sounded like they were somehow terrified playing it, but it sounded OK. We recorded it three times and the final one – which we did in their house and then overdubbed in Covent Garden – is what you hear today.
Finally, for some inexplicable reason, it made it out! With Radiohead we always say, "It doesn't matter how we get there, as long as we end up at the right place," but actually I think the real skill is being able to recognise something that lands on your lap and is fully formed and wonderful. A big part of my job is trying to persuade Thom that just because this thing happened very quickly, it doesn't mean it's not great. He doesn't understand what it is about what he does that's great. He doesn't know or understand where it comes from.
Songs have a kind of window where they are really most alive – and you have to capture it. Nude missed its window, and it took a lot of reinvention to bring it back to the place where we could capture it again in a way that resonated for the people playing it. It was essentially the same song; nothing had really changed. What has changed are the people playing it.»

«Nigel Godrich started out at RAK Studios, where he engineered Carnival Of Light by Ride and The Bends by Radiohead. He has produced Radiohead's last four albums, and has also worked with Travis, Paul McCartney (Chaos And Creation In The Back Yard) and on Beck's last three albums. He remixed U2's Walk On and produced Band Aid 20's Do They Know It's Christmas?»
«Thom's very prolific, he's always writing, and one time I made a list of songs that he had that they hadn't recorded. Radiohead have a little catalogue of songs that just never get done. It's almost because it's their best material and no version is ever quite good enough. It's too precious to them. I said, "You have to record them, because one day you're going to die and they'll go with you. It's criminal. And if you don't fucking record them, I'm going to fucking do it! I'll do a covers album!" And Nude was one of these songs.
After The Bends was all done and dusted, I'd seen them at a show and they said they'd been thinking about us all working together. We'd done a bunch of B-sides on The Bends and it had gone really well, so we hatched a plan to have a couple of little try-outs to see how it would work.
We booked a weekend in the studio to start recording what would become OK Computer, although it took a long time to really get into that. We recorded two songs; one was called Big Boots – actually, it was called Man O' War at the time, which is another great lost Radiohead classic. The other thing we tried to record was a song called Nude. Thom had just written it and it was almost a different song to the version on In Rainbows. It's recognisable, but it had different lyrics and it was a lot straighter. The idea was for it to be like an Al Green track. It had a Hammond going through it on the version we recorded that weekend. They liked it, it was deemed a great success. But then for some reason everyone went off it. We tried to record it a couple more times for OK Computer, probably about three times for Kid A and another three times for Hail To The Thief. But somehow it had gone.
We had a little holiday from each other. The band tried to record on their own, which – surprise, surprise – didn't work. Then they tried working with someone else, which also didn't work. During that time I went to see Colin, the bass player, and he played me a rough live version of Nude that they'd done in rehearsals. He'd written his new bassline, which transformed it from something very straight into something that had much more of a rhythmic flow. The chorus had been taken out – very Radiohead! – and there was this new vocal break and this new end section. It sounded like they were somehow terrified playing it, but it sounded OK. We recorded it three times and the final one – which we did in their house and then overdubbed in Covent Garden – is what you hear today.
Finally, for some inexplicable reason, it made it out! With Radiohead we always say, "It doesn't matter how we get there, as long as we end up at the right place," but actually I think the real skill is being able to recognise something that lands on your lap and is fully formed and wonderful. A big part of my job is trying to persuade Thom that just because this thing happened very quickly, it doesn't mean it's not great. He doesn't understand what it is about what he does that's great. He doesn't know or understand where it comes from.
Songs have a kind of window where they are really most alive – and you have to capture it. Nude missed its window, and it took a lot of reinvention to bring it back to the place where we could capture it again in a way that resonated for the people playing it. It was essentially the same song; nothing had really changed. What has changed are the people playing it.»

«Nigel Godrich started out at RAK Studios, where he engineered Carnival Of Light by Ride and The Bends by Radiohead. He has produced Radiohead's last four albums, and has also worked with Travis, Paul McCartney (Chaos And Creation In The Back Yard) and on Beck's last three albums. He remixed U2's Walk On and produced Band Aid 20's Do They Know It's Christmas?»
Temas:
Entrevistas,
Reflexões,
Rock
It's easy to forget
Obrigado pelo convite pessoal, é uma honra ter sido distinguido com inharmonicidade...
Não me alongo em discursos porque também não disponho de flexibilidade temporal para eles nesta fase do ano, mas prometo algo mais elaborado eventualmente, simplesmente limito-me a deixar aqui um videozinho que não vale pelo video em si(sendo o Mar Português escusado), mas sim pela música que passa e pela pessoa que a compôs. Lamento Bernardo, não vou aceder ao teu pedido e não prestarei homenagem a Gorecki, mas sim a um compatriota vosso por sangue e meu por coração, que, infelizmente, não tendo passado nenhuma data de Jubileu nos últimos anos em relação à sua pessoa, me parece muitíssimo esquecido, sendo uma dor enorme para qualquer amanta de música. Alguém que nos deixou algo como este bocado de pura alma, que ouvimos deveria ser homenageado constantemente, investigado, e apresentado num pedestal ao público geral.
Tristemente, constato que nada disso se passa. Aliás, deduzo que até 2024, quando farão 100 anos desde o seu nascimentos, ou quem sabe, se o dinheiro escassear, só em 2038 com os 50 anos da sua morte é que ouviremos um aplauso e um tirar do chapéu nacional a este enorme compositor.
Concluindo, prometendo uma continuação noutra ocasião, pergunto:
Lopes-Graça, Carlos Seixas, Luís de Freitas Branco, António Pinho-Vargas, Emanuel Nunes entre outros tantos... e o Joly?
Jan W.
Não me alongo em discursos porque também não disponho de flexibilidade temporal para eles nesta fase do ano, mas prometo algo mais elaborado eventualmente, simplesmente limito-me a deixar aqui um videozinho que não vale pelo video em si(sendo o Mar Português escusado), mas sim pela música que passa e pela pessoa que a compôs. Lamento Bernardo, não vou aceder ao teu pedido e não prestarei homenagem a Gorecki, mas sim a um compatriota vosso por sangue e meu por coração, que, infelizmente, não tendo passado nenhuma data de Jubileu nos últimos anos em relação à sua pessoa, me parece muitíssimo esquecido, sendo uma dor enorme para qualquer amanta de música. Alguém que nos deixou algo como este bocado de pura alma, que ouvimos deveria ser homenageado constantemente, investigado, e apresentado num pedestal ao público geral.
Tristemente, constato que nada disso se passa. Aliás, deduzo que até 2024, quando farão 100 anos desde o seu nascimentos, ou quem sabe, se o dinheiro escassear, só em 2038 com os 50 anos da sua morte é que ouviremos um aplauso e um tirar do chapéu nacional a este enorme compositor.
Concluindo, prometendo uma continuação noutra ocasião, pergunto:
Lopes-Graça, Carlos Seixas, Luís de Freitas Branco, António Pinho-Vargas, Emanuel Nunes entre outros tantos... e o Joly?
Jan W.
Temas:
Clássica,
Portuguesa
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Henryk Gorecki
Há uns tempos fiz um artigo para a wikipedia sobre este compositor, em português. Nem sei se ainda lá está: há sempre um brasileiro qualquer que resolve tirar os acentos todos, modificar as frases todas, ou substituir «polaco» por «polonês» (devem ser os senhores que fazem o pólen de haxixe, não sei). Bom, de qualquer forma, gostava de abrir um tópico sobre Górecki, que fez algumas das minhas obras favoritas do séc. XX, e é um artista que aprecio particularmente. Acho que não era mal pensado pôr aqui o artigo, tratado:
Henryk Górecki nasceu a 6 de Dezembro de 1933 em Czernica, no Sul da Polónia, filho de pais músicos. Apesar de ter demonstrado desde cedo um interesse em estudar música, a morte da sua mãe, quando tinha apenas dois anos, implicou a proibição de poder tocar no piano dela, durante a infância, por ordem do pai. Acabou, no entanto, por ter aulas de violino aos dez anos com um músico amador, Pawel Hadjuga. É a partir de 1951 que Gorecki começa a compor as suas primeiras peças, maioritariamente canções e pequenas peças para piano, quando ingressa na sua primeira escola de música, em Rybnik. Pouco depois, estuda por si mesmo as regras do dodecafonismo e serialismo, e mais tarde evolui para o modernismo de Webern, Xenakis e Boulez. Conclui o curso de composição com Boleslaw Szabelski em Katowice e, depois de uma pós-graduação em Paris, torna-se professor nessa mesma escola onde estudou. Durante o seu estudo, Gorecki apercebe-se da importância de trabalhar para desenvolver uma linguagem própria e as primeiras tentativas surgiram com os Quatro Prelúdios de 1955, e evoluindo seriamente durante os anos sessenta, considerado o seu período mais dissonante. Em 1969, Gorecki parece ter atingido a sua maturidade com Old Polish Music¸mas é nos anos setenta que atingirá o estilo que mais o caracterizará, com obras como Ad Matrem (1971), a Sinfonia nº 3 (Symphony of Sorrowful Songs) e Beatus Vir (ambas de 1979). Gorecki preocupava-se em conseguir uma ligação perfeita entre o conteúdo espiritual e emocional do texto (frequentemente sagrado ou de origem tradicional) com a sua música, e aí residiu o sucesso destas composições.
Com a década de oitenta, Gorecki expande a sua gama de possibilidades e na música dele encontramos radicais contrastes no tempo, nas dinâmicas e na textura harmónica no que toca à oposição consonância/dissonância, ao mesmo tempo influenciado pelo folclore polaco. Tal expansão artística é visível na sua música de câmara, desde Lerchenmusik (1984) a Little Requiem for a Polka - Kleines Requiem fur eine Polka – (1993). Ainda na década de oitenta, Gorecki torna-se politicamente activo e são-lhe característicos actos em nome de uma causa que defende: depois de ter dedicado muito da sua música ao Papa João Paulo II, demite-se do seu cargo de professor da Escola Superior de Música de Katowice como acto de protesto ao governo por não ter permitido a visita do Papa na cidade; já o seu Miserere foi composto para comemorar a violência decretada contra a União Comercial Auto-Governativa. Gorecki é casado com Jadwiga Ruranska e tem dois filhos – Anna, uma pianista, e Mikolaj, compositor.
Tem como obras importantes:
(50-70)
Four Preludes, Op. 1, (Piano), 1955 Three Songs, Op. 3, 1956 Sonata for Piano, Op. 6, 1956 Symphony No. 1, Op. 14, (Strings and Percussion), 1959 Three Pieces in an Old Style, (String Orchestra), 1963 Genesis III, Op. 19, 1963 Choros I, Op. 20, (String Orchestra), 1963
(70-80)
Ad Matrem, Op. 29, 1971 Two Sacred Songs, Op. 30, 1971 Symphony No. 2 ('Copernican'), Op. 31, 1972 Amen, Op 35, 1975 Symphony No. 3 'Symphony of Sorrowful Songs', Op. 36, 1976 Beatus Vir, Op. 38, (Baritone, Choir and Orchestra), 1979
(80-hoje)
Miserere, Op. 44, (Choir a Cappella), 1981 Lerchenmusik, Op. 53 (Clarinet, Cello and Piano), Op. 53, 1984 O Domina Nostra, 1985 Totus Tuus, Op. 60, 1987 Kleines Requiem für eine Polka Op 66, (Piano and Instruments), 1993 Five Kurpian Songs, Op. 75 (Choir), 1999 Niech Nam Zyja I Spiewaja, (Choir), 2000
Bem, mas o que realmente interessa é porque, não conhecendo assim tanto do homem, ele me fascina tanto. A verdade é que não sei bem explicar, mas tem qualquer coisa a ver com o sentido fotográfico ou cinematográfico que ele tem de ver o mundo, em que tudo acontece muito, muito lentamente (um fim dele bem que pode demorar uns seis minutos a acontecer) e isso vai de encontro com o meu sentido de beleza. Gosto da coragem de ser tão modal ou tonal com tanto modernismo, gosto de poder ouvir a música dele durante muitas horas sem cansar o cérebro: como tudo acontece mais devagar, posso acompanhar o que acontece entre os momentos em que «acordo». E, se me propôr a estar desperto durante toda a obra, encontro em cada detalhe algo a que me agarrar, se bem que este género de audição não é, para mim, de todo a melhor. Não quero, por respeito, continuar, é provável que para algumas pessoas esteja a dizer uma carrada de disparates. Ainda por cima, tenho um amigo que provavelmente nos dirá mais sobre este compositor brevemente! Deixo um vídeo que usa a minha parte favorita da 3ª sinfonia, numa montagem de um filme (desculpem, mas praticamente tudo o que há em vídeo dele, são montagens de filmes).
Henryk Górecki nasceu a 6 de Dezembro de 1933 em Czernica, no Sul da Polónia, filho de pais músicos. Apesar de ter demonstrado desde cedo um interesse em estudar música, a morte da sua mãe, quando tinha apenas dois anos, implicou a proibição de poder tocar no piano dela, durante a infância, por ordem do pai. Acabou, no entanto, por ter aulas de violino aos dez anos com um músico amador, Pawel Hadjuga. É a partir de 1951 que Gorecki começa a compor as suas primeiras peças, maioritariamente canções e pequenas peças para piano, quando ingressa na sua primeira escola de música, em Rybnik. Pouco depois, estuda por si mesmo as regras do dodecafonismo e serialismo, e mais tarde evolui para o modernismo de Webern, Xenakis e Boulez. Conclui o curso de composição com Boleslaw Szabelski em Katowice e, depois de uma pós-graduação em Paris, torna-se professor nessa mesma escola onde estudou. Durante o seu estudo, Gorecki apercebe-se da importância de trabalhar para desenvolver uma linguagem própria e as primeiras tentativas surgiram com os Quatro Prelúdios de 1955, e evoluindo seriamente durante os anos sessenta, considerado o seu período mais dissonante. Em 1969, Gorecki parece ter atingido a sua maturidade com Old Polish Music¸mas é nos anos setenta que atingirá o estilo que mais o caracterizará, com obras como Ad Matrem (1971), a Sinfonia nº 3 (Symphony of Sorrowful Songs) e Beatus Vir (ambas de 1979). Gorecki preocupava-se em conseguir uma ligação perfeita entre o conteúdo espiritual e emocional do texto (frequentemente sagrado ou de origem tradicional) com a sua música, e aí residiu o sucesso destas composições.
Com a década de oitenta, Gorecki expande a sua gama de possibilidades e na música dele encontramos radicais contrastes no tempo, nas dinâmicas e na textura harmónica no que toca à oposição consonância/dissonância, ao mesmo tempo influenciado pelo folclore polaco. Tal expansão artística é visível na sua música de câmara, desde Lerchenmusik (1984) a Little Requiem for a Polka - Kleines Requiem fur eine Polka – (1993). Ainda na década de oitenta, Gorecki torna-se politicamente activo e são-lhe característicos actos em nome de uma causa que defende: depois de ter dedicado muito da sua música ao Papa João Paulo II, demite-se do seu cargo de professor da Escola Superior de Música de Katowice como acto de protesto ao governo por não ter permitido a visita do Papa na cidade; já o seu Miserere foi composto para comemorar a violência decretada contra a União Comercial Auto-Governativa. Gorecki é casado com Jadwiga Ruranska e tem dois filhos – Anna, uma pianista, e Mikolaj, compositor.
Tem como obras importantes:
(50-70)
Four Preludes, Op. 1, (Piano), 1955 Three Songs, Op. 3, 1956 Sonata for Piano, Op. 6, 1956 Symphony No. 1, Op. 14, (Strings and Percussion), 1959 Three Pieces in an Old Style, (String Orchestra), 1963 Genesis III, Op. 19, 1963 Choros I, Op. 20, (String Orchestra), 1963
(70-80)
Ad Matrem, Op. 29, 1971 Two Sacred Songs, Op. 30, 1971 Symphony No. 2 ('Copernican'), Op. 31, 1972 Amen, Op 35, 1975 Symphony No. 3 'Symphony of Sorrowful Songs', Op. 36, 1976 Beatus Vir, Op. 38, (Baritone, Choir and Orchestra), 1979
(80-hoje)
Miserere, Op. 44, (Choir a Cappella), 1981 Lerchenmusik, Op. 53 (Clarinet, Cello and Piano), Op. 53, 1984 O Domina Nostra, 1985 Totus Tuus, Op. 60, 1987 Kleines Requiem für eine Polka Op 66, (Piano and Instruments), 1993 Five Kurpian Songs, Op. 75 (Choir), 1999 Niech Nam Zyja I Spiewaja, (Choir), 2000
Bem, mas o que realmente interessa é porque, não conhecendo assim tanto do homem, ele me fascina tanto. A verdade é que não sei bem explicar, mas tem qualquer coisa a ver com o sentido fotográfico ou cinematográfico que ele tem de ver o mundo, em que tudo acontece muito, muito lentamente (um fim dele bem que pode demorar uns seis minutos a acontecer) e isso vai de encontro com o meu sentido de beleza. Gosto da coragem de ser tão modal ou tonal com tanto modernismo, gosto de poder ouvir a música dele durante muitas horas sem cansar o cérebro: como tudo acontece mais devagar, posso acompanhar o que acontece entre os momentos em que «acordo». E, se me propôr a estar desperto durante toda a obra, encontro em cada detalhe algo a que me agarrar, se bem que este género de audição não é, para mim, de todo a melhor. Não quero, por respeito, continuar, é provável que para algumas pessoas esteja a dizer uma carrada de disparates. Ainda por cima, tenho um amigo que provavelmente nos dirá mais sobre este compositor brevemente! Deixo um vídeo que usa a minha parte favorita da 3ª sinfonia, numa montagem de um filme (desculpem, mas praticamente tudo o que há em vídeo dele, são montagens de filmes).
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Contemporânea
Paco de Lucia
Contrariando a tendência do videoclube Inarmónico, venho falar-vos hoje do Paco de Lucia, guitarrista que deve dispensar apresentações (assim o espero, para o vosso bem). Particularmente de dois álbuns distintos e de tudo o que há entre eles:
Quem conhecer a história do Paco sabe que consiste basicamente em duas etapas distintas:
1. Tocar até cair para o lado desde que o pai o tirou da escola para se dedicar exclusivamente à guitarra. Depois, tocar ainda mais.
2. Conquista mundial. Tocar o dobro.
Ora, durante o processo do ponto 2, Paco teve contacto com muitos dos maiores músicos da sua (nossa) época, e com muitos géneros musicais diferentes. Isto, aliado à sua originalidade, levou a que fosse reinventando o flamenco, e ao trabalho nas fronteiras estilísticas. Se ele foi (como todos os inovadores) bastante criticado e acusado de traição, hoje será mais ou menos unânime que o flamenco nunca mais será o mesmo depois de Paco de Lucia, e que sem ele a guitarra flamenca não teria o alcance que tem hoje.
Siroco é quase como que uma tentativa de definir o estilo, na sua nova concepção. Harmónica e ritmicamente mais colorido, encontra-se bastante próximo da sua raíz, do flamenco mais puro, dos ritmos batidos com palmas, e do canto desgarrado. Mas mais que isso, é um álbum que resulta da paixão pela música e do amor em tocar. E depois há a questão de ficarmos com os queixos no chão com tamanho virtuosismo.
17 anos depois de Siroco, e tendo desde então trabalhado em projectos tão diferentes como:
Guitar Trio, com Al DiMeola e John McLaughlin; Concerto de Aranjuez (ao que parece era a interpretação preferida do Rodrigo... Discutível); álbum com obras de Manuel de Falla; várias incursões pelo "neo-flamenco",
Paco de Lucia volta a aproximar-se da "autenticidade" de que era acusado de estar alheado. Cositas Buenas é para mim um álbum bastante próximo de Siroco, mas constitui a sua evolução lógica. A paixão orgânica que caracteriza a música não pode deixar ninguém indiferente. A cumplicidade da ligação entre voz (Paco também canta) e guitarra é avassaladora.
É fantástico ver como Paco lida com o conflito entre inovação e personalidade. Duma forma tão fantástica que a ele parece ser completamente indiferente - e deixa-o subjugado pela sua música. Há muito a aprender com este verdadeiro ícone (então para nós, guitarristas clássicos...).
A título de (pequeníssimo) exemplo, aqui fica a parte final de Soleá, do álbum Siroco:
Links:
Site Oficial
Link YouTube 1 - Volar, de Cositas Buenas
Link YouTube 2 - Gloria al Niño Ricardo (Soleá), de Siroco
Quem conhecer a história do Paco sabe que consiste basicamente em duas etapas distintas:
1. Tocar até cair para o lado desde que o pai o tirou da escola para se dedicar exclusivamente à guitarra. Depois, tocar ainda mais.
2. Conquista mundial. Tocar o dobro.
Ora, durante o processo do ponto 2, Paco teve contacto com muitos dos maiores músicos da sua (nossa) época, e com muitos géneros musicais diferentes. Isto, aliado à sua originalidade, levou a que fosse reinventando o flamenco, e ao trabalho nas fronteiras estilísticas. Se ele foi (como todos os inovadores) bastante criticado e acusado de traição, hoje será mais ou menos unânime que o flamenco nunca mais será o mesmo depois de Paco de Lucia, e que sem ele a guitarra flamenca não teria o alcance que tem hoje.
Siroco é quase como que uma tentativa de definir o estilo, na sua nova concepção. Harmónica e ritmicamente mais colorido, encontra-se bastante próximo da sua raíz, do flamenco mais puro, dos ritmos batidos com palmas, e do canto desgarrado. Mas mais que isso, é um álbum que resulta da paixão pela música e do amor em tocar. E depois há a questão de ficarmos com os queixos no chão com tamanho virtuosismo.
17 anos depois de Siroco, e tendo desde então trabalhado em projectos tão diferentes como:
Guitar Trio, com Al DiMeola e John McLaughlin; Concerto de Aranjuez (ao que parece era a interpretação preferida do Rodrigo... Discutível); álbum com obras de Manuel de Falla; várias incursões pelo "neo-flamenco",
Paco de Lucia volta a aproximar-se da "autenticidade" de que era acusado de estar alheado. Cositas Buenas é para mim um álbum bastante próximo de Siroco, mas constitui a sua evolução lógica. A paixão orgânica que caracteriza a música não pode deixar ninguém indiferente. A cumplicidade da ligação entre voz (Paco também canta) e guitarra é avassaladora.
É fantástico ver como Paco lida com o conflito entre inovação e personalidade. Duma forma tão fantástica que a ele parece ser completamente indiferente - e deixa-o subjugado pela sua música. Há muito a aprender com este verdadeiro ícone (então para nós, guitarristas clássicos...).
A título de (pequeníssimo) exemplo, aqui fica a parte final de Soleá, do álbum Siroco:
Links:
Site Oficial
Link YouTube 1 - Volar, de Cositas Buenas
Link YouTube 2 - Gloria al Niño Ricardo (Soleá), de Siroco
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Nostalgias e Acasos Cósmicos
Para deixar o Telmo um pouco mais confortável com a suposta "mariquice" do post anterior, aqui deixo também a minha, com três vídeos (na realidade três músicas que também mudaram a minha vida, já lá vai uns anitos).
A história do rock é uma curva ascendente até 1973, e depois uma lenta decadência. Há excepções, mas tão escassas, que não contrariam a tendência geral (noto que pode haver muita coisa interessante nos anos 80 e 90, mas nada ao nível de 1973). Esse Entangled, dos Genesis já sem Peter Gabriel (em 1976), é quase um canto de cisne de um certo tipo de música.
A propósito de 1973, pergunto-me que raio de acaso cósmico terá conjugado nesse ano uma série de obras-primas, entre as quais:
Pink Floyd - The Dark Side of The Moon
Genesis - Selling England by the Pound
Yes - Tales from Topographic Oceans
Mike Oldfield - Tubular Bells
Emerson Lake & Palmer - Brain Salad Surgery
Black Sabbath - Sabbath Bloody Sabbath
A história do rock é uma curva ascendente até 1973, e depois uma lenta decadência. Há excepções, mas tão escassas, que não contrariam a tendência geral (noto que pode haver muita coisa interessante nos anos 80 e 90, mas nada ao nível de 1973). Esse Entangled, dos Genesis já sem Peter Gabriel (em 1976), é quase um canto de cisne de um certo tipo de música.
A propósito de 1973, pergunto-me que raio de acaso cósmico terá conjugado nesse ano uma série de obras-primas, entre as quais:
Pink Floyd - The Dark Side of The Moon
Genesis - Selling England by the Pound
Yes - Tales from Topographic Oceans
Mike Oldfield - Tubular Bells
Emerson Lake & Palmer - Brain Salad Surgery
Black Sabbath - Sabbath Bloody Sabbath
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